GT - SENTIDO DA VIDA [Parte 1]

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Set 30, 2016
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GT DO SENTIDO DA VIDA
Anões, esse GT vai ser grande pra caralho
AVISO: Apesar de parecer, esse GT não é mais uma história romântica clichê, confie em mim.
PRÓLOGO:
>oi, eu sou o… bem, isso não importa
>tudo o que você precisa saber é que minha vida é um saco
>eu tenho depressão
>mas não como esses frutinhas, suicidas de facebook
>eu realmente tinha depressão
>uma vez um professor meu com quem eu conversava muito me disse que eu tinha um tal “niilismo existencial”
>é o nome para o que eu sinto
>mas essa história não é sobre isso
>é sobre como minha vida mudou para sempre
>era uma sexta-feira qualquer de 2004
>eu tinha 16 anos e era o meu primeiro emprego
>eu trabalhava em uma locadora
>meu sonho era ser um cineasta
>por enquanto, aquele era o melhor emprego para mim
>eu ficava o dia inteiro assistindo filmes
>as vezes eu precisava parar para atendente clientes
>mas nada que me incomodasse, afinal é o meu trabalho
>em um desses dias, uma garota apareceu lá
>ela era bonita, bem bonita, mas eu não dei muita atenção para isso
>era só mais uma cliente, já passei da fase de me apaixonar por pessoas aleatórias que nunca vou ver outra vez
>enfim
>faltava apenas 7 minutos para eu fechar a locadora
>algumas pessoas, principalmente mulheres, amam demorar pra caralho enquanto escolhem um filme
>então eu não só não liguei para a beleza dela, como não gostei que ela aparecesse
>tava pensando o quê?
>que eu ia olhar os lindos cabelos loiros dela, os olhos azuis e a pele clara e lisa, e sentiria uma atração inexplicável por ela?
>vai tomar no cu
>isso aqui não é um livro adolescente
>para minha surpresa ela foi bem rápida
>pegou três DVD’s
>isso era bom
>não pude deixar de notar que ela trocou os adesivos dos DVD’s por outros
>caso você seja um juvenil de bosta, deixa eu explicar:
>em algumas locadoras os DVD’s tinham adesivos
>cada adesivo tinha uma cor, na minha locadora eram 3
>o adesivo dourado, o prata e o vermelho
>o dourado era 9 reais, o prata 6, e o vermelho 3
>quase não tinham DVD’s com adesivos dourados
>a maioria era vermelho, e alguns pratas
>quanto melhor fosse o filme, mais chances do adesivo dele ser dourado
>quando ela trouxe os DVD’s, logo saquei tudo
>ela não sabia, mas eu conhecia praticamente cada um daqueles filmes
>ela tinha pego 3 filmes bem antigos
>Luzes da Cidade, Cantando na Chuva e Último Tango em Pariz
>TODOS OS TRÊS ERAM DVD’S DE ADESIVOS DOURADOS
>estavam com adesivos vermelhos
>ela sequer se deu ao trabalho de disfarçar, colocar pelo menos um dourado
>se fossem ao menos prata, mas vermelhos?
>um filme com Charlie Chaplin, outro com Genne Kelly e outro com Marlon Brando
>TODOS OS TRÊS VERMELHOS? AH, VSF!
>eu tive que prender a risada
>- dá 27 reais, moça – eu disse, colocando em uma sacola
>- não, dá 9 reais! - ela respondeu
>- daria, se fossem filmes com adesivos vermelhos.
>ela apontou para um dos DVD’s, motrando o adesivo
>- eu vi você trocando os adesivos
>- eu não tr…
>antes que ela terminasse eu apontei para uma câmera
>depois apontei para o monitor no meu balcão
>ela se calou, ficou meio sem graça
>ela ficou MUITO sem graça, na verdade
>- olha, eu não queria te constranger, mas…
>- não, tá tudo bem, desculpa por isso.
>porra
>ela realmente parecia muito bolada
>ou era uma ótima atriz
>o que não me surpreendia, já que era aparentemente uma cinéfila
>porra de novo
>eu realmente fiquei com pena dela
>- tá tudo bem, ninguém precisa saber… - eu disse, piscando o olho para ela
>ela me olhou estranho, acho que não tinha entendido
>- humm, vejamos o que temos aqui… - eu disso ironicamente, olhando para os DVD’s – olhe só! 3 DVD’s com adesivos vermelhos.
>ela riu
>o sorriso dela era lindo
>- são 9 reais, moça.
>ela tirou o dinheiro da bolsa
>eu entreguei a sacola para ela
>- posso saber em quais DVD’s você colocou os adesivos dourados?
>ela não respondeu
>agora tinham 3 filmes horríveis custando 27 reais na nossa locadora
>- tá bem… já tem cadastro?
>- Ágata Vila-Flor
>- humm, vida longa à Portugal! - respondi ironicamente enquanto procurava no computador
>ela estava devendo outros 13 filmes
>puta que pariu, qual é o problema dessa garota?
>eu simplesmente ignorei, não sei dizer o motivo
>- tudo bem, você tem o final de semana inteiro
>- obrigado – ela respondeu, e foi embora
>mas antes que ela passasse pela porta, eu chamei sua atenção novamente
>- como você sabia?
>ela se virou para mim
>- sabia o quê?
>- como você sabia que eu não ia falar dos 13 filmes que você não devolveu?
>ela simplesmente sorriu e foi embora
Depois do fim de semana…
>segunda-feira
>aguardei ela chegar para entregar os DVD’s, mas ela não apareceu
>é claro que eu esperava por isso
>na hora de fechar, pensei em esperar um pouco
>no dia que ela tinha pegou os DVD’s era bem tarde
>mas depois de dez minutos eu desisti e fui embora
>terça-feira
>eu pensei que talvez ela aparecesse
>mas acho que ela não estaria disposta a pagar multa por atraso
>quer dizer, ela não tinha nem 27 reais para os 3 filmes que pegou naquela noite
>imagina pagar a multa de atraso de todos os 13 filmes?
>era um real por dia, e o primeiro filme que ela alugou foi há 1 mês
>fico me perguntando como meu avô deixou isso acontecer (era ele que tomava conta da locadora antes de mim, na verdade a locadora é dele)
>agora ele está muito doente pra isso, mas não vem ao caso
>quarta-feira
>eu já tinha desistido
>ela definitivamente era uma ladra de filmes
>ainda assim algo me fez esperar 10 minutos novamente
>eu sentia que ela apareceria... senti errado
>desisti e fui emborra
>à noite, nenhuma novidade
>apenas eu trancado no meu quarto assistindo uma sitcom para amenizar meus problemas psicológicos de merda
>durante a manhã eu estudava
>no colégio a professora de Português me passou uma atividade
>eu tinha que fazer a resenha de um livro
>ela escolheu um livro para cada aluno
>mas não os entregou
>era para a gente arranjar os livros
>um sortudo ficou encarregado de fazer a resenha de Eu, Robô
>eu manjo muito de ficção científica
>mas fiquei encarregado de fazer a resenha de um livro chamado 1984
>de um tal de George Orwell
>não conhecia, mas ela falou que era um misto de romance com ficção científica
>que merda
>eu procurei pelo livro na biblioteca do colégio, mas não encontrei
>agora eu tinha que achar essa porra
>tinha uma biblioteca perto do colégio, provavelmente eu o encontraria lá
>do colégio fui direto para a biblioteca
>chegando lá, algo intrigante aconteceu
>eu encontrei ninguém menos do que ela: a ladra de filmes
.
>eu me aproximei dela, ela ainda não tinha me visto
>estava folheando um livro de frente para uma prateleira
>- você também rouba livros? - perguntei, a pegando de surpresa
>ela continuou de costas para mim, e colocou o livro de volta na prateleira
>- você demorou de me achar! - ela disse, se virando
>- você queria que eu te encontrasse? - eu perguntei, intrigado
>- claro que não! - ele negou, com um tom de deboche – mas eu sabia que você iria tentar.
>- se quer saber, não te encontrei aqui intencionalmente.
>- não?
>- não, preciso pegar um liv…
>nesse momento eu percebi que o livro que ela colocou na prateleira era justamente o que eu estava procurando: 1984, de George Orwell
>ela percebeu que eu fiquei olhando para ele, então ela o pegou novamente
>- você quer isso? - ela perguntou rindo
>- é, era ele que eu tava procurando. Vai roubar primeiro?
>- é uma biblioteca, eu não preciso roubar.
>- você não devolve os filmes.
>- mas devolvo os livros, e quer saber? Eu não te devo satisfação nenhuma.
>ela simplesmente foi até a bibliotecária com o livro
>- ei, o livro! - eu gritei
>- eu vi primeiro… - ela disse, piscando o olho para mim antes de falar com a bibliotecária
>bem, eu não podia simplesmente tomar dela
>tecnicamente ela tinha o direito de pegar o livro, ela viu primeiro
>eu precisava pensar em algo
>então decidi segui-la
>assim que ela saiu da biblioteca eu saí também
>tentei manter distância durante todo o percusso
>ela seguiu por um caminho que passava por um parque
>depois ela deu a volta por um condomínio próximo
>tinha um campo verde enorme
>tinha muito verde pela frente, e depois do verde tinha a areia, as pedras e o mar
>ela estava saindo da cidade
>e pior, pela pista
>eu a segui, mas se ela olhasse para trás me veria
>não tinha onde eu me esconder, eu não ia me esgueirar por árvores feito um imbecil
>o “passeio” deve ter durado meia-hora
>no meio do caminho ela finalmente teve a ideia de olhar para trás
>- você consegue chegar lá sem morrer? Tá suando e respirando igual a um porco há uns quize minutos.
>ela sabia o tempo todo que eu estava seguindo ela
>eu devia ter previsto isso
>- não quer saber por que eu tô te seguindo?
>- não, eu não ligo pra você.
>um bom tempo depois finalmente chegamos no litoral
>eu não fui até as pedras, pois a água estava batendo nelas e eu ia me molhar
>mas ela foi até lá, mesmo com o livro
>- cuidado para não molhar o livro! - eu gritei, irritado
>- isso não é problema seu. - ela respondeu
>ela conseguia ser mais irritante que qualquer pessoa que eu já conheci
>mas eu tinha um bom plano
>ou ao menos um que ia servir por agora
>tentaria chantagear ela com a dívida dos DVD’s
>- você tá me ouvindo? - gritei
>- não! - ela gritou de volta
>não sei se ela pensou que isso seria engraçado
>tanto faz, eu simplesmente fui para mais perto dela
>- eu preciso do livro. - eu disse
>- é, eu também.
>- sério, eu tenho uma atividade no colégio valendo ponto, e preciso dele.
>- não tô te ouvindo direito, por que você não vem mais pra perto?”
>eu me aproximei ainda mais, por algum motivo, mesmo sabendo que ela só tava curtindo com a minha cara
>- por favor, eu preciso desses pontos.
>ela se levantou da pedra onde estava sentada
>- vem aqui pegar…
>- eu não vou jogar esse tipo de jogo!
>- foi o que eu pensei – ela disse, se sentando outra vez
>aquilo soou como um desafio para mim
>tomei coragem e fui até lá
>- é assim que vai ser? - eu perguntei
>ela se levantou rindo, e me encarou esperando que eu tentasse pegar o livro
>eu fui na direção dela, e ela fez a coisa mais doida que alguém já ousou fazer comigo
>ela simplesmente me empurrou e eu caí no mar
>mas tinha um problema: eu não sei nadar
>eu comecei a me debater na água, enquanto subia e descia várias vezes
>não era o que eu estava planejando para a minha sexta-feira
>há uma semana ela tinha trocado adesivos de DVD’s da locadora em que eu trabalho, e eu achei isso radical
>ela ficou rindo de mim, talvez achou que eu estivesse sendo dramático
>ou talvez ela só fosse uma psicopata do caralho
>felizmente ela não era, pois quando percebeu que era sério, parou de rir no mesmo momento
>ela se jogou na água e me ajudou
>que ótimo, agora eu fui salvo pela pessoa que eu pretendo tomar um livro
>se eu tinha algum resto de dignidade, eu perdi naquele momento
>- você tá bem? - ela perguntou
>eu não consegui responder
>- é, acho que eu vou ter que fazer respiração boca a boca…
>nesse momento meu coração disparou
>- brincadeira! - ela disse rindo, e então deu um murro na minha barriga
>eu tossi e depois cuspi toda a água que tinha engolido
>- se as pessoas soubessem que isso funciona, os filmes de romance iriam perder a magia – ela disse se levantando.
>o quê? Você pensou que iríamos nos apaixonar depois dela salvar minha vida?
>eu já te avisei que isso não é um romance clichê
>mas o fato de que eu entrei em uma euforia anormal quando ela sugeriu respiração boca-a-boca me deixou intrigado
>mas acho que não tem problema nenhum com isso, ela era bonita e ia me beijar
>não é como se eu sentisse algo por ela ou coisa assim
>enfim
>depois disso eu me levantei e olhei para a minha roupa
>eu definitivamente preferia ter morrido afogado
>eu tava completamente encharcado
>- você não sabe nadar… - ela comentou, rindo
>- você acha? - eu disse, enquanto parti para cima dela para pegar o livro de novo
>diplomacia não é o forte dela, eu devia saber
>ela fugiu de mim por um tempo, e parecia estar se divertindo com isso
>até que eu finalmente a agarrei pelo braço
>qualquer pessoa que visse aquilo pensaria que era um casal curtindo
>nesse momento nos encaramos olho no olho
>só então eu percebi o quanto ela era bonita
>é óbvio que eu já tinha reparado que ela era bonita, mas… ela era MUITO bonita
>mas eu esqueci isso no mesmo momento, porque para meu desespero ela simplesmente jogou o livro no mar
>- você não fez isso… - eu olhava para o mar, incrédulo
>eu percorri de uma biblioteca até uma porra de praia, por um livro que ela tinha acabado de jogar na água
>- você deve querer muito esses pontos… - ela disse rindo, enquanto olhava para o mar também
>por um momento eu tive vontade de matar ela
>bem, ninguém tava vendo, então seria uma bela oportunidade
>- por que? - eu perguntei olhando para ela, desesperado
>ela deu de ombros
>- você é sempre assim tão… monótono?
>- monótono? Você acha que só porque eu não roubo DVD’s e jogo livros no mar eu sou monótono?
>- se eu fosse você, eu teria depressão…
>okay, eu entendo que ela não teve a intenção
>mas doeu tanto quanto aquele murro na barriga
>ela percebeu que eu fiquei mais sério depois que ela falou isso
>- você não tem depressão, tem?
>eu respirei fundo
>- é melhor juntar dinheiro, sua ladra maluca! - eu disse apontando o dedo na cara dela – porque você tem uma multa muito cara para pagar lá na locadora
>- eu não vou pagar nada e você sabe disso.
>- vamos ver! - eu disse, e fui embora
>eu estava com muita raiva dela
>ela tinha ultrapassado todos os limites
>falar da minha depressão foi o fim da picada
>- ei, idiota! - ela gritou, mas eu não olhei para trás
>ela tentou me acompanhar
>- sai de perto de mim! - eu disse, apontando para longe
>- eu sei onde conseguir outro livro daquele.
>eu parei
>meu orgulho não queria deixar, mas eu precisava do livro
>- eu tô ouvindo – disse, cruzando os braços
>- em outra biblioteca – ela disse rindo
>- você é uma idiota…
>segui meu caminho, me concentrando em não quebrar meu código de honra: não bater em mulheres
>- você é um bebê chorão! - ela gritou, já longe
>- essa foi a coisa mais imatura que eu ouvi em anos! - gritei de volta
>- chorar é mais imaturo ainda!
>eu ignorei, apenas segui meu caminho
>eu tinha o fim de semana para conseguir outro exemplar de 1984
>mas aquilo não ia sair barato, literalmente não, ela ia pagar por isso… e pelos DVD’s
.
>sábado de manhã
>estou em minha cama olhando para o teto
>somos 7 bilhões
>em um universo de uma vastidão… do caralho
>que existe há… muito tempo
>muito tempo mesmo
>e que provavelmente vai existir por mais tempo ainda
>eu não sou nada
>eu morrerei e serei esquecido por todos
>cairei no limbo do universo
>as pessoas que me amam vão superar, e seguir em frente
>e quando elas morrerem, não terá sobrado nada de mim nesse mundo
>nem mesmo as lembranças, pois não tem ninguém mais vivo que se lembre de mim
>ah, a propósito: bom-dia
>niilismo existencial, sabe como é
>enfim
>eu tinha que encontrar um exemplar de 1984
>e falar com meu avô sobre a ladra
>minha cabeça doía só de me lembrar dela
>finalmente criei ânimo para levantar
>antes mesmo de tomar café fui falar com meu avô
>- vô, temos um problema lá na locadora.
>- o que aconteceu? Algo deu errado?
>- não, não, não é isso. Bem, é que… tem um cadastro lá, de uma pessoa, e ela tem 13 filmes que pegou há muito tempo, e ainda não devolveu. E ela p…
>antes de terminar, lembrei que não podia falar que ela pegou mais 3, pois eu tinha acobertado isso
>- e ela… ela não aparece pra devolver, sabe?
>- qual o nome do cadastro?
>- Ágata Vila-Flor.
>meu avô riu
>- ah, não se preocupe com isso!
>- quê? M-mas, por que?
>- apenas deixe isso pra lá, não vale seu tempo. Vá se divertir garoto, hoje é sábado!
>aquilo foi estranho pra caralho
>eu tinha que fazer algo a respeito
>ela tinha que pagar pelas merdas que fez
>mas agora não tinha nada que eu pudesse fazer, pelo visto
>o melhor a ser feito era eu tratar de providenciar o livro
>tinham outras 2 bibliotecas na minha cidade, todas bem longe
>tudo bem que eu fui parar fora da cidade no dia anterior, mas na verdade esse era um bom motivo para eu não fazer nada parecido hoje
>estava extremamente cansado
>resolvi que ia jogar tudo pro alto
>passei a manhã inteira assistindo uns desenhos que estavam passando na televisão
>depois passaram alguns programas chatos até que eu encontrei um daqueles filmes oitentistas de ação bem mal-dirigidos
>fiz isso até dar meio-dia
>almocei tranquilamente, como se nada estivesse acontecendo
>foda-se a resenha daquele livro idiota
>foda-se os filmes que a ladra roubou
>depois do almoço fui para meu quarto novamente
>joguei video-game por horas à fio
>até que uma pedra caiu no chão do meu quarto
>só tinha uma explicação: alguém jogou ela na janela
>eu fui olhar na janela e uma pedra acertou meu olho
>puta que pariu
>era a ladra de filmes
>- Rapunzel, jogue suas lindas traças para mim! - ela disse, sempre com aquele tom de deboche dela
>- que porra cê tá fazendo aqui? Aliás, como você sabe onde eu moro?
>- você vai descer ou não?
>eu não respondi, apenas fechei as janelas
>de repente eu ouvi do meu quarto alguém batendo na porta da casa
>era ela de novo
>antes que eu pudesse gritar pro meu avô não atender, já era tarde demais
>- pois não? - meu avô perguntou, inocente
>- oi, eu sou uma amiga do seu neto, ele tá ai?
>- ah sim, claro, minha jovem! Pode ir entrando…
>puta que pariu… puta que pariu duas vezes
>- ele está enfonado naquele quarto dele, fique à vontade.
>- obrigado – ela respondeu com um sorriso gentil para ele
>que garota encantadora
>ou ao menos deve ter sido isso que meu avô pensou
>mas eu sei bem o que essa maluca é
>eu fiquei encostaod na porta, esperando ela subir as escadas
>- seu avô é um fofo – ela respondeu, e passou por mim entrando no quarto
>- sim, pode entrar! - eu falei ironicamente, e entrei no quarto também
>ela fechou a porta e jogou uma mochila na cama
>- o que você tá fazendo aqui? - eu perguntei
>ela se sentou na minha cama e olhou ao redor
>- seu quarto é legal, e você tem uma televisão nele
>- você não respondeu minha pergunta
>- isso é um PlayStation? - ela disse, ligando meu console
>- eu estou esperando uma resposta…
>- aposto que eu ganho de você em qualquer jogo! - ela disse
>- tá, legal, agora me diz o que você veio fazer aqui.
>ela foi até a mochila e pegou um livro
>era o livro que eu precisava, 1984
>ela me entregou o livro na mão
>- se você pensa que isso muda alguma coisa…
>eu fui interrompido
>mas dessa vez não por uma das maluquices dela
>quer dizer, de certa forma sim
>ela simplesmente me beijou
>foi um beijo bem longo, e eu demorei pra assimilar o que tava acontecendo
>quando finalmente pensei em reagir ela parou
>- tá legal, o que foi isso?
>- você beija mal – ela disse, pegando o joystick para jogar
>- mas eu nem tava… esquece! Você é maluca!
>ela riu, enquanto começou a jogar
>- Final Fantasy é coisa de frutinha, não tem nada melhor aí não?
>que idiota, FF é uma das melhores sagas de jogos que existem
>ela pegou meu disco de Metal Gear Solid
>- isso sim é um jogo bom!
>eu não sabia como mandá-la embora
>eu tinha esse direito, eu sei que sim
>mas era muito estranho, como falar “vai embora do meu quarto”?
>ainda mais pra uma garota
>uma garota que tinha acabado de me beijar
>decidi que simplesmente ia ver onde isso ia parar
>péssima ideia, 18:00h da noite e ela ainda não tinha ido embora
>- esse livro não é roubado, é? - eu perguntei, segurando-o
>- você não devia estar fazendo uma resenha dele?
>- não, eu faço amanhã.
>- não, você faz hoje. Amanhã vamos sair!
>- o quê? Como assim, você não me convidou pra lugar nenhum, e nem eu… droga, dá pra você me explicar o que tá acontecendo?
>- você é divertido, e eu quero sair com você, é isso. Não é óbvio?
>eu respirei fundo
>qual é o problema dessa garota?
>ela fugiu de mim por uma semana
>quase me matou afogado
>e agora entra no meu quarto, me beija, joga meus jogos e praticamente ordena que eu saia com ela?
>eu queria ter o auto-confiança dela
>nem sei o motivo, mas simplesmente fui fazer a resenha do livro
>as vezes eu parava pra observar ela jogando
>ela era muito boa nisso
>mas que porra! Há algumas horas atrás eu estava planejando fazer ela pagar uma multa caríssima e me vingar da raiva que ela me fez passar
>e agora ela tá sentada na minha cama
>eu bem que podia jogar ela da janela e dizer que foi um acidente
>na verdade eu deveria ter feito isso, como descobri mais tarde
>pois deu a hora do jantar e ela ainda estava lá
>- O jantar tá na mesa! - minha mãe gritou da sala de jantar
>eu nem tinha visto ela chegar
>- finalmente! Eu já tava com fome – ela disse, e largou o joystick de lado
>ela ia jantar na minha casa
>ela… ia… jantar… na… minha… casa
>puta que pariu pela terceira vez
>eu demorei pra sair do quarto
>conseguia ouvir ela falando com minha mãe
>ela tinha um carisma do caralho
>dava pra ver que as duas estavam se entendendo super bem
>tipo, nem foi como “quem é essa garota que eu nunca vi antes?”
>quando eu desci, as duas estavam conversando sobre Casablanca
>um filme muito bom inclusive, recomendo
>minha mãe também gostava de filmes antigos, por causa do meu avô
>meu pai passou o jantar inteiro me olhando com aquele jeito tipo “boa, filhão!”
>eles tavam pensando que ela era a minha namorada
>- então, há quanto tempo vocês se conhecem? - minha mãe perguntou
>- há umas duas semanas, e ele passou esse tempo todo tentando me conquistar – ela disse, me olhando de um jeito desafiador
>minha mãe riu, meu pai continuava minha olhando igual a um idiota
>meu avô agia como se nada estivesse acontecendo
>aquela seria uma longa noite
>e eu tentava achar um motivo pra não gritar “EU NÃO CONHEÇO ESSA DOIDA, ELA SIMPLESMENTE ENTROU NA MINHA VIDA E FEZ UM MONTE DE MALUQUICE E EU NÃO QUERO VER ELA NUNCA MAIS! ALGUÉM FAZ ALGUMA COISA!”
>se bem que de alguma forma, agora eu já não estava tão desesperado assim
>meu avô por algum motivo não se importa com os filmes
>e eu desconfio que ele já conheça ela
>e apesar de eu não estar muito afim de ver a cara dela, acho que a minha raiva passou
>eu consegui fazer a redação, no fim das contas
.
>por sorte, não aconteceu nenhum desastre no jantar
>apesar de que ela fez parecer que eu sou louco por ela para os meus pais
>depois disso, ela finalmente foi embora
>minha mãe foi fazer um daqueles comentários constrangedores
>- ela é muito bonita e inteligente, você deve gostar muito dela.
>eu ignorei, fui direto falar com meu avô em particular
>- certo, vô, me explica o que tá acontecendo… - eu falei
>- o quê? Como assim?
>- você conhece ela de algum lugar? Por que você não liga pro registro com os 13 filmes não devolvidos?
>- você se importa mesmo com isso?
>- bom, sim, né…
>ele riu
>- sabe, quando eu era jovem, eu ia para o cinema assistir as matinês de faroeste que tinham no domingo - disse meu avô, sentando-se em sua poltrona
>aquilo ia ser interessante, pelo visto
>- mas eu não tinha dinheiro para assistir essas matinês todo domingo. Então eu ia até o porteiro, dizia que meu pai estava lá e precisava falar com ele, entrava e assistia.
>- e ele caia nisso? – eu perguntei, achando aquilo ridículo
>- claro que não! - ele respondeu rindo – Mas ele não se importava, ele deixava por pura vontade.
>à essa altura, já tinha entendido onde ele queria chegar
>- quando essa garota apareceu pela primeira vez, há mais ou menos um mês, eu a vi trocando os adesivos dos filmes – ele continuou – eu ia chamar a atenção dela, mas então eu vi a cena mais bonita em todo o tempo que trabalhei ali: ela tinha pego um filme do Charles Chaplin. Uma garota de uns 16 anos, em pleno século XXI, pegando um filme de Chaplin!
>eu estava começando a me sentir mal por querer fazer ela pagar a multa
>- eu não sei qual a condição financeira dessa garota, mas acontece que ela ama cinema, e ela faz o que faz, por causa disso, exatamente como eu fazia. Eu sou o porteiro agora, entende? Eu sei o que ela faz, mas eu também sei o motivo. E isso faz com que eu não me importe.
>- então ela pode pegar filmes à vontade?
>- é, ela pode. Apenas faça parecer que você não sabe, isso é importante.
>- certo.
>- agora, como eu já tinha dito, vá se divertir. É sábado!
>meu avô sorriu e então se levantou, indo para o seu quarto
>- boa noite.
>- boa noite, vô.
>agora eu me sentia um idiota
>um completo idiota
>essa é provavelmente a garota mais incrível (e maluca) que eu já conheci
>a verdade é que eu não mereço ela
>eu não mereço a amizade dela
>eu não mereço a atenção que ela me dá
No dia seguinte…
 
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