[Conto] A Montanha

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Jul 5, 2012
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Mais um conto pra alegrar o fim de semana de vcs :)


A MONTANHA

O vento uivava como um banshee faminto ao redor da cabana de pedra aninhada no coração das montanhas Wicklow. Alistair, um homem de meia-idade com barba rala e olhos cansados, apertou o casaco de lã contra o frio cortante. Vivia ali há anos, isolado do mundo, buscando a paz que a civilização lhe negara. Mas a paz, descobriu ele, era um luxo que aquelas montanhas não ofereciam.
Na primeira noite, foi o som. Um arranhar sutil na porta, como unhas finas deslizando pela madeira envelhecida. Alistair agarrou o machado, o coração martelando no peito, mas ao abrir, não encontrou nada além da escuridão dançante e das sombras alongadas das árvores retorcidas.
As noites seguintes trouxeram sussurros, vozes indistintas carregadas pelo vento, parecendo chamar seu nome de longe. Ele tentava ignorar, atribuindo tudo à sua mente pregando peças, fruto da solidão e do isolamento. Mas a insistência dos sons era perturbadora, penetrando a barreira de sua racionalidade.
Uma névoa densa começou a envolver a cabana ao cair da noite, tornando o mundo exterior um borrão fantasmagórico. Dentro, a chama trêmula da lareira lançava sombras que dançavam e se contorciam, transformando objetos familiares em monstros grotescos.
Uma noite, enquanto a tempestade chicoteava as janelas, o arranhar na porta voltou, mais forte, mais desesperado. Desta vez, veio acompanhado de um choro abafado, um som de puro sofrimento que gelou o sangue de Alistair.
Hesitante, ele espiou pelo olho mágico. A névoa obscurecia tudo, mas por um breve instante, ele viu. Uma figura pequena, curvada, com cabelos longos e emaranhados, agarrada à maçaneta. Seus dedos eram longos e pálidos, as unhas escuras e pontudas.
O choro cessou, substituído por um silêncio sepulcral. Então, uma batida lenta e constante começou na porta. Tum... tum... tum... Cada pulsação ressoava no peito de Alistair, carregada de uma ameaça invisível.
Ele recuou, tremendo, a sanidade se esvaindo como a fumaça da lareira. Sabia, no fundo de sua alma, que não estava sozinho naquela montanha. Algo mais habitava aquelas encostas selvagens, algo antigo e faminto, e agora, estava à sua porta. O terror o paralisou, enquanto a batida continuava, implacável, na escuridão da noite irlandesa.
 

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